Solidão e companhia artificial
Clarificação conceitual e avaliação crítica a partir de uma perspectiva humanística
Palavras-chave:
solidão, inteligência artificial, companhia artificial, reconhecimento social, tecnossolucionismoResumo
Este artigo propõe uma avaliação crítica do tecnosolucionismo aplicado à chamada “epidemia da solidão”, ao analisar como a inteligência artificial (IA) reconfigura esse mal-estar social em um objeto de consumo privado. O objetivo principal é realizar um esclarecimento conceitual e normativo sobre a transição da IA de ferramenta para interlocutora. Metodologicamente, adota-se uma perspectiva humanística e relacional que questiona a definição dominante de solidão, entendida meramente como um déficit individual de interação mensurável por meio de escalas subjetivas. Por meio de uma análise comparativa da literatura recente sobre companheiros de IA e robôs sociais, identificam-se tendências transversais: a estabilização da solidão como variável psicologizada, a promessa de modulabilidade afetiva por meio de interação de baixo custo e a justificativa dessas tecnologias por sua escalabilidade diante da escassez de recursos humanos. O artigo conclui que a intervenção tecnológica não é politicamente neutra, pois tende a deslocar a questão das condições sociais, institucionais e políticas do vínculo (reconhecimento e inclusão) para a gestão técnica de estados individuais. Propõe-se, em contrapartida, recuperar ferramentas humanísticas para discutir a solidão como um fenômeno com implicações públicas que requer infraestruturas coletivas de cuidado e não apenas soluções privatizadas.
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